Jogar sem a bola

Uma medida paliativa que virou definitiva

por Guilherme Estevão, São Paulo - 12 de abril de 2019

Por Leonardo Miazzo

Antes de iniciar de fato este texto, quero deixar claro: o Corinthians mereceu a classificação à final do Campeonato Paulista. Ponto. Sempre que alguém me pergunta se determinado resultado foi merecido, devolvo uma indagação: “houve interferência da arbitragem?”. Se não houve influência decisiva do apito, então o resultado foi justo. É uma forma de superar subjetividades e partir para uma análise de desempenho. E é aí que quero chegar: o Corinthians pode ter merecido objetivamente a classificação nos pênaltis contra o Santos, na última segunda-feira, no Pacaembu. Mas o rendimento do time de Fabio Carille não pode ser relativizado.

Daniel Augusto Jr. / Ag. Corinthians

Poucas vezes, no passado recente do futebol paulista, assistimos a um domínio tão intenso de um grande time sobre outro em jogo de mata-mata. É evidente que as propostas de jogo de Carille e Jorge Sampaoli são amplamente distintas: o Corinthians não tem vergonha de jogar sem a bola, e isso não é necessariamente um demérito; o Santos, por outro lado, teve mais posse de bola que praticamente todos os seus adversários na temporada. São duas formas legítimas de organizar os times, a partir das ideias de cada treinador.

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Uma coisa, porém, é estar preparado para jogar sem a bola e suportar a pressão do adversário em certos momentos do jogo. Outra, completamente diferente, é abdicar de trabalhar com a bola nos pés durante praticamente os noventa minutos. Apostar em ligações diretas entre defesa e ataque é uma tática a ser aplicada nos períodos de maior aperto. Mas quando isso se torna a estrutura de um jogo… bem, aí há um problema claro. E foi isso o que vimos no Pacaembu na última segunda-feira, 8: o Corinthians não quis a bola em momento algum.

Desenhado esse cenário, é preciso questionar: é aceitável que um time grande cujo treinador não é um novato (e seja absolutamente bem remunerado) aposte nesse tipo de proposta? A pobreza de ideias pode ser suavizada quando os resultados aparecem? É preciso dizer que a crítica não se aplica apenas ao Corinthians. Muito pelo contrário. Tomo o time de Carille como exemplo porque a distância entre as propostas de Corinthians e Santos no jogo em questão foi escandalosa. No entanto, há uma série de outros times, com treinadores ultra-renomados e elencos caros (mais caros que o do Corinthians) e que também deixam muito a desejar no desempenho.

O Palmeiras de Felipão, por exemplo.


O Verdão foi campeão brasileiro em 2018 com uma arrancada impressionante a partir da chegada do técnico pentacampeão mundial. Os resultados eram bons e muitos torcedores e jornalistas decidiram fechar os olhos para o futebol jogado – afinal, o técnico pegou um trabalho no meio do caminho e adotou, com competência, uma forma pragmática de jogar para conquistar o título brasileiro. Tudo bem.

Chegamos, porém, a uma nova temporada. E aquele elenco campeão brasileiro, já fortíssimo, recebe reforços de peso. O Palmeiras, no papel, é mais forte em 2019 do que em 2018, e isso me parece bastante óbvio. Mas, então, por que o desempenho não evolui? Porque o rendimento do time está intimamente ligado ao modo de pensar de seu treinador, ora bolas… E Felipão, a essa altura da carreira, não parece disposto a mudar.


Carille, muito mais novo que Felipão e com muito menos resultados a apresentar, também parece preso às suas ideias. E, quando sai de sua zona de conforto, tende a procurar na imprensa (sempre de modo generalizado) o inimigo a ser enfrentado. E tudo isso se explica, em parte, pela falta de hábito de debater o desempenho além do resultado. Analisar placares não é difícil. Basta olhar o marcador. Mas melhorar a qualidade do futebol jogado demanda esforço, disciplina, humildade e autocrítica. 


Estarão os treinadores brasileiros dispostos a isso?



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