Futebol raiz? Ode ao atraso tenta legitimar a homofobia no futebol brasileiro

Já passou da hora de sermos intolerantes contra a intolerância

por Guilherme Estevão, São Paulo - 19 de abril de 2019

Por Leonardo Miazzo

Poucos assuntos são tão entediantes quanto a oposição entre o (suposto) “futebol raiz” e o (suposto) “futebol Nutella”. Não tem sido raro perceber, nas redes pretensamente sociais e fora delas, um movimento de ódio ao “futebol moderno” que se manifesta pelo apego a tudo o que há de mais atrasado no contexto esportivo. Há poucos meses, quando da decisão da Copa Libertadores de 2018 entre Boca Juniors e River Plate, alguns dos representantes desse movimento concluíram que a violência nos arredores do Monumental de Nuñez era um traço do “futebol raiz”.


Enquanto essa ode ao atraso no futebol se mantém longe do campo prático e confinada em algumas mentes confusas, menos mal. Há um problema, porém, quando isso interfere diretamente no esporte e nas pessoas que o praticam. E não precisamos ir a Buenos Aires – ou Madrid, no contexto da última Libertadores – para perceber isso. O Brasil é terreno fértil para a propagação dos mais inaceitáveis exemplos de subdesenvolvimento nos estádios de futebol. De onde surgiu, por exemplo, a horrorosa prática de gritar “bicha” (como se fosse uma ofensa) ao goleiro adversário na cobrança de um tiro de meta? É uma tosca adaptação de uma prática dos anos 1970 no México: quando o goleiro corria e chutava a bola, os torcedores gritavam “pum”, em uma alusão ao barulho produzido pelo chute.


No começo dos anos 2000, o grito “pum” virou “puto”, já com conotação homofóbica. Registra-se que a prática se difundiu a partir de torcedores do Atlas, quando esses decidiram atacar o goleiro Oswaldo Sánchez, que havia jogado no clube – depois, foi para o América e, mais tarde, para o Chivas. Antes de um jogo contra o Atlas, Sánchez disse que seu coração pertencia ao Chivas. Isso foi o bastante para dar início a uma prática que parece inabalável em alguns países da América do Sul.

Imagem Internet


No Brasil, o “puto” virou “bicha”. E, em pleno 2019, quando mais vozes se levantam contra essa baixaria arcaica, ainda aparecem os cavaleiros do atraso a entoar o cântico da “luta contra o futebol moderno”, como se a simples invocação dessa entidade invisível chamada “futebol raiz” legitimasse o preconceito e o ódio irracional nos estádios de futebol. Certamente você já se deparou com algum torcedor a dizer: “isso faz parte do futebol”. Aqui, de novo, agem como se o estádio se localizasse em uma dimensão paralela e como se as leis que nos regem fora dele não se aplicassem ali. 


O futebol brasileiro aprendeu, por exemplo, a ser intolerante com o racismo nas arquibancadas. Basta nos lembrarmos do caso de que foi vítima o goleiro Aranha, que, como atleta do Santos, teve de ouvir gritos de “macaco” vindos das arquibancadas do Estádio Olímpico, em Porto Alegre, durante um jogo contra o Grêmio, em 2013. De lá para cá, a situação mudou. Mas, então, por que a postura homofóbica de amplas parcelas de torcedores brasileiros ainda é tão relativizada, naturalizada?


Como não tenho qualquer traço de corporativismo barato, não deixo de destacar que os jornalistas esportivos têm um papel fundamental na luta contra a homofobia nos estádios e, via de regra, não têm coragem ou disposição para levantar essa bandeira. É quase constrangedor assistir a um jogo pela TV em que esses gritos são percebidos com clareza pelos telespectadores, mas os narradores, comentaristas e repórteres se fingem de surdos. E essa omissão contribui com a relativização do preconceito.

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Como falar em democratização do futebol quando os estádios ainda são antros da homofobia e do machismo? Há pouquíssimas semanas, a repórter Laura Gross, da Rádio Guaíba, relatou que, durante a cobertura do jogo entre Internacional x River Plate, pela Libertadores, em Porto Alegre, um torcedor tentou beijá-la à força. Depois, ela comentou o caso nas redes sociais: “Perdemos como seres humanos, humanidade e como sociedade”.


É preciso esclarecer um ponto: essas pessoas não se tornam homofóbicas, machistas e racistas ao entrar no estádio. Não é como se ali houvesse um ar contaminado que invadisse os pulmões de quem passa. Essas pessoas já são homofóbicas, machistas e racistas durante as vinte e quatro horas de cada um dos sete dias da semana. Elas apenas esperam pela entrada no estádio para externar todo esse preconceito sem que se sintam perturbadas internamente ou que corram o risco de pagar caro pelas declarações.


Na cabeça desses torcedores, o mundo do futebol é, realmente, um universo à parte. No estádio, o atraso tem vez, o preconceito tem voz e a irracionalidade é raiz. Porque tudo isso “faz parte do futebol”. E quem discordar, dizem eles, apela para o “mimimi”. Quando até o presidente da República legitima a homofobia e o machismo ao longo de décadas, percebe-se que a luta é dura. Mas não se pode abdicar dessa responsabilidade, sob o risco de perpetuar esse jurássico estado do futebol brasileiro.


É preciso dizer, em alto e bom som, quantas vezes forem necessárias: machistas, racistas e homofóbicos não passarão!

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