O Corinthians conquistou o Paulistão. E daí?

Por que o título estadual não pode encobrir a pobreza de ideias

por Guilherme Estevão, São Paulo - 26 de abril de 2019

Por Leonardo Miazzo

Antes de iniciar em definitivo essa coluna, digo que o Corinthians mereceu a conquista do Campeonato Paulista – afinal, como já expliquei neste espaço em outras oportunidades, tendo a considerar justo o resultado que não sofreu interferência decisiva da arbitragem. É uma forma de driblar a subjetividade e aprofundar a análise do desempenho, mais do que do placar puro e simples. Ao olhar para o que se desenvolveu em campo, porém, há muito mais interrogações do que motivos para o corintiano se empolgar para a sequência do ano.

É evidente que o tricampeonato estadual tem de ser comemorado pelo torcedor. É fato, também, que uma conquista sobre um grande rival – que vive doloroso jejum de títulos – não é fato corriqueiro. Não quero, de maneira nenhuma, deslegitimar a bonita celebração de corintianos em todo o país. Mas é preciso, sim, olhar para o que o placar e o título podem esconder: um futebol absolutamente aquém do que esse time pode render.

É preciso ser justo, porém, e dizer que o São Paulo tampouco fez por merecer melhor sorte. Depois de dois bons jogos contra o Ituano nas quartas de final, o time de Vagner Mancini e Cuca demonstrou graves limitações contra Palmeiras e Corinthians, especialmente na transição entre o meio campo e o ataque. Jogadas construídas coletivamente foram raríssimas (na maior parte das vezes, os lances de perigo saíam de lampejos individuais). Há sempre o argumento de que o time está em formação e, no caso do São Paulo, ainda existe o componente da incessante troca de treinadores, o que atrasa ainda mais a construção de uma identidade.

E o Corinthians?

A favor do técnico Fábio Carille pesa o grande número de contratações feitas pela diretoria para a temporada 2019. É natural que o entrosamento do time demande mais tempo. Mas, ainda assim, seria bastante plausível esperar ver em campo esboços de ideias, as quais, embora em estágio inicial, poderiam apontar para uma sequência de temporada positiva. Mas o que Carille fez questão de deixar claro ao longo do campeonato é que não será fácil superar esse futebol burocrático que o Corinthians mostrou na maior parte da temporada.

O Corinthians é mais uma entre as grandes equipes brasileiras a adotar a muleta do “futebol reativo”, um eufemismo para caracterizar os times que, na maior parte do tempo, abrem mão de jogar com a posse de bola e apostam na recuperação para partir em velocidade para o ataque. É uma estratégia tolerável para cenários específicos, mas quando se torna a principal arma de um time em quase todos os duelos significativos… bem, aí há um problema.


 Daniel Augusto Jr/ Ag. Corinthians

xis da questão é: o Corinthians pode render mais. O nível de exigência em relação ao Corinthians não pode ser o mesmo, por exemplo, do que temos com o Vasco ou o Botafogo (apenas para tomarmos como exemplos outros dois gigantes do futebol nacional); afinal, Carille tem à sua disposição um leque muito mais amplo de opções para montar o time. Os treinadores dos grandes clubes brasileiros são extremamente bem pagos e, a qualquer sinal de crítica, apegam-se a resultados para justificar um modo de enxergar o futebol. Quando, entretanto, os resultados não aparecem, buscam outros subterfúgios…

O Campeonato Brasileiro bate à porta e o Corinthians precisará superar essa pobreza de ideias. A falta de protagonismo nos jogos e a ausência de criatividade no setor de meio-campo podem não ter trazido grandes contratempos no Campeonato Paulista, dados o nível da maioria dos adversários e o próprio formato de mata-mata a partir da segunda fase. Mas o que esperar de um campeonato longo, desgastante e… de pontos corridos?

Pela Copa do Brasil, a situação não tem sido lá muito diferente. Nesta quarta-feira 24/IV o Corinthians fez, sim, um bom jogo para eliminar a Chapecoense (até pela necessidade de vitória, após o revés no jogo de ida, contra um time infinitamente inferior tecnicamente). Mas, também por essa competição, o torcedor há de se lembrar dos muitos sustos contra Ferroviário, Avenida e Ceará.

A falta de regularidade é um dos grandes obstáculos a se superar na disputa de um torneio estafante como o Brasileirão. Em jogos esporádicos, o Corinthians mostra o tamanho do seu potencial. Tem, de fato, bons jogadores, especialmente do meio-campo para a frente. E é justamente nesse setor, insisto, que os problemas têm se acumulado. Ao final do Paulista, Carille admitiu que a equipe precisa melhorar, e essa autocrítica é fundamental para fazer o time evoluir.

O desafio do Corinthians é não se empolgar com o título estadual e, por causa dessa conquista, acreditar que o restante da temporada está encaminhado. O exemplo do Flamengo, também campeão estadual mas sofrendo para se classificar na Libertadores, pode e deve servir de alerta.

Já está na hora de transformar a busca pelo protagonismo em rotina.

E que deixem o “futebol reativo” para quem tem condições de ir além.

Twitter
Principais Veículos e Jornalistas

Mais Futebol

Ver Mais Posts
Rádio Ao Vivo