O que é o Manchester City? Campeão da Premier League

O maior time de todos os tempos e um “instrumento de sportswashing” de um Estado estrangeiro

por Guilherme Estevão, São Paulo - 12 de agosto de 2019

Por Miguel Delaney, redator-chefe da editoria de esportes do Independent, do Reino Unido (tradução de Leonardo Miazzo):
 

Há muitas descrições possíveis do projeto do Manchester City neste momento, de muitos tons diferentes, mas uma das mais precisas é: o City é provavelmente o clube de futebol mais avançado do mundo. Isso não se aplica apenas à mentalidade. Há também o planejamento.

Os preparativos para a janela de transferências deste verão, na verdade, começaram há 18 meses, no sábado 16 de dezembro de 2017, em uma manhã de uma partida com o Tottenham Hotspur. Pep Guardiola estava obviamente refletindo sobre o jogo – uma grande vitória por 4 a 1 – daquela forma tipicamente vidrada, mas o clube trabalha tão sofisticadamente em tantos níveis que Pepe também participou de uma reunião de alto nível com o presidente Khaldoon al Mubarak, o executivo-chefe Ferran Soriano e o diretor de futebol Txiki Begiristain para discutir as contratações até a atual janela. O pensamento é de que todo o negócio é baseado no futuro de médio prazo, portanto, nenhuma transferência nasce por pânico ou mera reação. Naturalmente isso ajuda a minimizar os erros e maximizar a evolução da equipe.

A ideia no final daquele encontro era que o City provavelmente já precisaria de outro meia central, outro atacante e definitivamente outro número seis para suceder Fernandinho. O clube passou por seu típico processo de recrutamento meticuloso e, eventualmente, chegou a Rodri. Ele é um jogador que, como a Community Shield já confirmou, simplesmente se encaixa.

É assim que o clube funciona. É assim que tudo parece orgânico. É assim que eles ganham tantos jogos do modo como conquistaram a Copa da Inglaterra de 2019. Eles estão condicionados a um desempenho tão alto que clubes do perfil do Watford não podem sequer começar a competir.

O mesmo está começando a se aplicar a muitos dos rivais mais próximos do City. Esta é a consequência inevitável de “criar uma cultura de excelência” em absolutamente todos os níveis do clube, devidamente apoiada por um nível de investimento a longo prazo acima de qualquer concorrente. “O melhor da sala de aula” foi a frase – e o objetivo – que continuou sendo repetida desde os primeiros dias da aquisição, e agora estamos vendo isso aplicado em sua plenitude.

Uma história da pré-temporada dá conta de que Guardiola até disse a um membro da equipe de bastidores que ele não viajaria com a equipe se estivesse um quilo acima do peso. Esses são os padrões de um gênio. Estes são os níveis.

É por isso que tantas pessoas esperam que uma operação tão opressivamente brilhante termine com a conquista do título novamente.

Mesmo a análise interna de muitos de seus rivais calcula que o City vencerá a Premier League com seis pontos de vantagem sobre o vice-líder, acumulando mais de 95 pontos pela terceira temporada consecutiva. Se for esse o caso, como parece quase inevitável, eles não apenas acumularão um número improvável de pontos durante um período tão expressivamente longo para o futebol, mas se tornarão apenas o quinto clube a ter ganho o Campeonato Inglês três vezes seguidas. Outros marcos do City seriam se tornar o primeiro time em 10 anos a defender o título da Premier League, o primeiro a atingir 100 pontos e tantos outros recordes.

É claro que estamos falando de uma verdadeira era de ouro de uma das grandes equipes de todos os tempos, do tipo que ecoa pela história e deixa um legado, instigando discussões mais amplas sobre o que tudo isso significa e o que tudo isso representa.

Essa, no entanto, também é a maior discussão de todas sobre o City e seu dono.

O nível desse sucesso pode obviamente ser o produto final do gênio de Guardiola, que é bastante amplificado por um clube que não poupou gastos para tornar cada elemento absolutamente perfeito para ele, mas o ponto de partida – e a raiz de tudo isso – continua a ser a aquisição em 2008 pelo Abu Dhabi United Group.

E isso continua trazendo outras descrições sobre o City, muito diferentes de “avançado”, “brilhante” ou até mesmo de “campeão”.

Considere o que um membro da diretoria de um adversário do City disse aos jogadores depois de uma derrota por goleada em um jogo importante na temporada passada.

Vocês não estavam jogando contra um time hoje, rapazes, mas contra um Estado.”

É uma visão com que muitos agora estão resignados na Inglaterra, e da qual muitos outros estão ficando cientes na Europa. As críticas do presidente da Liga Espanhola, Javier Tebas, são bem conhecidas, mas a realidade é que elas são compartilhadas por figuras de muitos dos principais clubes do continente. Silvio Berlusconi – justo ele – citou isso como uma razão para abandonar o esporte.

Estas poderia ser meras desculpas convenientes para rivais derrotados, exceto pelo fato de também representarem análises totalmente inconvenientes de praticamente todas as autoridades de Abu Dhabi.

Especialistas da Amnesty, da Human Rights Watch e de muitas universidades especializadas na área ofereceram as seguintes descrições sobre o controle do City:

Uma das tentativas mais ousadas do futebol de “limpar a partir do esporte a imagem profundamente manchada de um país” [“sportswashing”, no original em inglês] .

Um instrumento de política externa.”

Um veículo estatal completo.”

Um exercício de poder suave [soft power, no original em inglês].”

Esse é o tipo de análise de autoridades que são simplesmente sérias demais para serem ignoradas. Isso exige foco e profunda reflexão. Apontar para o que está em campo não é suficiente, pois tal investimento explica e conduz o que acontece lá.

Há um pensamento ainda mais impressionante.

Se tais descrições dessas autoridades forem verdadeiras, isso significa que todo troféu do City envolve uma grandiosa política externa – de um Estado alvo das mais sérias dúvidas por seu histórico em direitos humanos – sendo impensadamente aplaudida.

Essa é a própria essência do “sportswashing” e reflete seu espetacular sucesso.

O ”sportswashing” é, afinal, muito mais sofisticado do que a percepção básica de “boas Relações Públicas”. Trata-se da integração e normalização da presença e dos interesses de um Estado – tudo isso fica evidente com cada peça da marca “Etihad”.

Esta é também a base de uma política coordenada por Abu Dhabi, detalhada em primeira mão em “The Club“, um brilhante livro de Joshua Robinson e Jonathan Clegg sobre o crescimento da Premier League como uma empresa global de esportes.

A visão era pintar uma imagem de uma nação globalmente relevante, dinâmica e acolhedora construída sobre os valores tradicionais do Golfo”, escrevem Robinson e Clegg. “Lançada em alguns documentos com nomes sensuais – Agenda de Política 2007-08 e Visão Econômica de Abu Dhabi 2030 – a ofensiva de soft-power de Abu Dhabi se baseou em três ferramentas cruciais. A primeira foi a Autoridade de Turismo de Abu Dhabi. Depois, havia a companhia aérea internacional de Abu Dhabi, a Etihad Airways.

Finalmente, Abu Dhabi procurou marcar presença no esporte internacional”.

Nada no esporte internacional tem tanta presença quanto o futebol ou a Premier League – frise-se que esses documentos foram publicados pouco antes de um dos mais proeminentes príncipes de Abu Dhabi comprar um dos clubes da competição.

Este é um dos muitos fatos que dificultam enormemente a visão ingênua de que tudo isso é uma mera iniciativa privada do Sheikh Mansour – um homem que, até agora, só compareceu a uma partida do City.

O acadêmico e historiador do futebol David Goldblatt considera essa visão risível.

Como sabemos, com famílias que detêm o poder em lugares como Abu Dhabi e os Emirados Árabes Unidos, não há uma linha divisória entre o público e o privado. Elas são o Estado”.

Outro fato é que isso foi algo transparente no primeiro encontro para a aquisição [do City] em agosto de 2008. Quando a intermediária Amanda Staveley e o conselheiro de Mansour, Ali Jassim, se reuniram com Garry Cook, o então CEO do City lhes disse: “Se vocês estão desenvolvendo sua nação e desejam estar em um palco global, nós somos a marca ideal para essa nação.”

A tomada de posse inicialmente teve Sulaiman al-Fahim instalado como líder, mas sua capacidade de liderança – e algumas extravagantes declarações públicas – desanimaram os responsáveis. ‘The Club‘ descreve como a família real – ao invés de Mansour, um príncipe que já possuía um fundo de fortuna tomado pelo irmão mais velho Mohammed bin Zayed Al Nahyan, o príncipe herdeiro de Abu Dhabi – ordenou sua substituição por alguém com um currículo muito mais polido e personalidade, além de um papel muito mais proeminente em Abu Dhabi e na federação mais ampla dos EAU: o atual presidente do clube, al-Mubarak.

Não poderia haver uma melhor personificação da importância do City para Abu Dhabi. Al-Mubarak é frequentemente descrito por especialistas como o “primeiro ministro de fato” dos EAU, e literalmente descrito pelo próprio país como “Presidente da Autoridade de Assuntos Executivos do Governo de Abu Dhabi”, “mandatado para fornecer assessoria política estratégica para o Presidente do Conselho Executivo de Abu Dhabi, Sua Alteza Sheikh Mohamed Bin Zayed Al Nahyan”. Ele é, na verdade, um dos conselheiros mais confiáveis de Bin Zayed – e não de Mansour – e sempre está na sala quando o príncipe herdeiro encontra líderes como Vladimir Putin.

Al-Mubarak rapidamente entendeu que o City deu a Abu Dhabi um nível de exposição global e conexões que poucas outras marcas poderiam igualar.

Ele também tem um perfil no país a que poucos ministros podem chegar. O mesmo pode ser dito do antigo membro da diretoria da City Simon Pearce, um guru de relações públicas que veio da Burson-Marsteller, o notório negócio de gerenciamento de crise famoso por trabalhar com Nicolae Ceauseşcu.

Pearce é citado como um dos autores dos documentos “Visão” do país, e descrito em e-mails pelo general Mike Hindmarsh – o homem que efetivamente conduziu a guerra no Iêmen para os Emirados Árabes Unidos – como “consultor de mídia da MBZ”.

As conexões com o poder mais central de Abu Dhabi não poderiam ser mais claras ou inegáveis.

Isso não deixa claro por que essa história só se tornou um problema agora, e os fãs do City podem se perguntar por que isso tudo só acontece quando eles desfrutam de tanto sucesso.

A razão, no entanto, é o próprio sucesso de toda a abordagem midiática. Há alguns passos e desenvolvimentos recentes que trouxeram isso à luz.

O primeiro foi na verdade um artigo coincidentemente publicado no mesmo fim de semana daquela reunião sobre contratações em 16 de dezembro de 2017. Foi escrito pelo especialista em EAU e ex-funcionário da Human Rights Watch Nicholas McGeehan, que o produziu efetivamente por causa de sua frustração com o fato de as ligações entre Abu Dhabi e o clube estarem sendo tão ignoradas.

O segundo passo veio apenas dois meses depois e foi inteiramente auto-infligido. Foi quando Guardiola usou uma faixa amarela em apoio admirável a políticos catalães presos, mas se expressou no contexto dos “direitos humanos”, em vez de qualquer razão política pessoal. Isso imediatamente chamou a atenção – e levantou questões – sobre os seus empregadores e o histórico de direitos humanos de Abu Dhabi, bem como o seu muito criticado envolvimento na guerra do Iêmen.

O grande passo, no entanto, foi o Football Leaks, de Der Spiegel, em novembro de 2018. Polemicamente desvendando políticas internas do clube e processos de tomada de decisão sobre tudo, desde política de mídia até o Fair Play Financeiro, o jornal apenas trouxe mais detalhes sobre as exatas intenções de todo esse projeto.

Os detalhes desses vazamentos já levaram diretamente a novas investigações da Uefa sobre alegações de mentiras em relação a violações dos regulamentos do Fair Play Financeiro.

O City negou repetidamente qualquer irregularidade, mas fontes de alto nível próximas à situação preveem que o clube será considerado culpado quando tudo chegar ao fim em setembro, e que uma suspensão da Liga dos Campeões por até três temporadas será recomendada. Tal resultado certamente complicaria o legado desta época, e talvez leve a algumas outras descrições sobre o clube.

Há um receio dos investigadores de que tudo poderia acabar em pizza, como acabou de acontecer com o AC Milan. Outras fontes da Uefa, no entanto, sustentam que agora há uma vontade real dentro do corpo governante de marcar um limite com o City, por várias razões. Um deles foi um detalhe específico revelado pelo Football Leaks que chocou muitos em Nyon. Trata-se do e-mail enviado pelo principal conselheiro jurídico do clube, Simon Cliff, aparentemente fazendo pouco caso da morte de Jean-Luc Dehaene em 2014, que havia liderado o grupo de investigação: “1 já foi, faltam 6”.

Há também a crença de que isso pode ser fundamental para o futuro da própria Uefa. Apesar de todo o inevitável foco no Fair Play Financeiro, outras fontes de alto nível sentem que isso é apenas um sintoma do que o City é, e não o problema específico em si. Muitos dentro do corpo veem o City – ou, mais especificamente, Soriano – com a intenção de tirá-los de cena e redesenhar o jogo em si. O City é visto como um clube central nos planos para uma nova super liga européia.

Seja qual for a verdade nisso, o City quer ativamente mudar os parâmetros do futebol. Soriano já liderou a mudança na distribuição financeira dentro da Premier League, mas vai muito além.

Soriano viu no clube uma lousa em branco – e os amplos recursos necessários – para seu grande plano de franquias globais que resultaram na criação do City Football Group. Há uma conexão tão profunda entre tudo isso que um clube em Nova York – e um estádio dentro de seus cinco distritos – eram vistos como essenciais, e não apenas para o futebol. Por causa de seu capital político e social.

Tudo isso significa que, seja o que pensem sobre o “Estado”, o projeto pode certamente parecer um império.

Esta é apenas uma outra razão pela qual esse é, de longe, o projeto mais ricamente financiado na história do futebol, muito além das transferências. Eles realizaram um investimento em inteligência e infraestrutura nunca antes visto.

Da mesma forma, os argumentos de Khaldoon sobre não quebrar o recorde mundial nas transferências parecem um tanto vazios e um pouco estratégicos. Recusar-se a gastar mais de 65 milhões de libras não é tão relevante se o seu banco de reservas estiver cheio de jogadores de mais de 40 milhões de libras e a sua contratação mais cara, Riyad Mahrez, for tão caro que só faz 14 jogos numa campanha que termina em título.

O time do City continua sendo um dos mais recheados do mundo. Adicionar um meia central realmente o tornaria perfeito.

É o que tudo isso significa. É por isso que esta temporada da Premier League parece totalmente previsível.

Outra questão a ser adicionada ao que é o City é se ele pode ser parado.

O próprio perfeccionismo de Guardiola pode, sem intenção, acabar se configurando em uma complicação. Todos os jogadores obviamente pensam que ele é um gênio, mas alguns o consideram intenso demais. Entende-se ser essa uma das razões pelas quais existem diferenças entre Guardiola e Leroy Sane.

Existe a possibilidade de que essas questões não sejam resolvidas, seja pelos jogadores ou pelo próprio Guardiola. É por isso que alguns pensam que ele pode sair em dois anos, especialmente se o clube for banido da Liga dos Campeões.

Mas é a isso que se resume: argumentos relativamente vagos sobre os problemas com a perfeição.

Isso é o City.

É por isso que há uma grande expecativa de que eles sejam campeões novamente e façam história mais uma vez.

Apenas se faz necessária uma nova reflexão sobre o que tudo isso significa.

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